segunda-feira, 29 de junho de 2015


Adormecida


De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras
Iam na face trêmulos — beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia..

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava, ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P'ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor! — tu és a virgem das campinas!
"Virgem! tu és a flor da minha vida!..."


Castro Alves

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Amor

Amemos! Quero de amor 
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão
Na tu´alma, em teus encantos
E na tua palidez 
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!

Quero em teus lábios beber

Os teus amores do céu!
Quero em teu seio morrer
No elevo do seu teu!
Quero viver d´esperança
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!

Vem, anjo, minha donzela,

Minh´alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!
E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor


Álvares de Azevedo